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10.5.08

ink


Estava numa livraria quando vi um livro-catálogo de tatuagens, olhei para o lado e vi um garoto com seu nome tatuado em japonês, “Buruno”. Acho essas coisas engraçadas, mas para um japonês conservador, é um atestado de burrice. De fato, a tatuagem no Japão ainda é associada à criminalidade. Em muitos lugares, como saunas, piscinas, academias e casas de banho, a entrada de tatuados é proibida.

Durante o período Yayoi (300 AC – 300), a tatuagem tinha conotação espiritual e era símbolo de status. Na era seguinte, a Kofun (300AD – 600), a tatuagem passou a ser sinônimo de punição, assim como nos escravos romanos. Só na era Edo (1600 – 1860) que a tatuagem japonesa passou a se desenvolver como a conhecemos hoje, principalmente pela influência do romance chinês Suikoden – épico de grande sucesso que conta a história de 108 bravos guerreiros a lá Robin Hood que tinham seus corpos tatuados com figuras de dragões, demônios, flores e tigres.



A tatuagem japonesa diferencia-se por não usar agulhas, mas uma talhadeira e, claro, a famosa tinta Nara, que fica numa tonalidade azul-esverdeada sob a pele. Durante a era Meiji, meados do século IXX, a tatuagem foi proibida no Japão, voltando a ser permitida só em 1945. Durante esse período, a conotação underground só fez aumentar a procura por tatuadores clandestinos, muitos dos interessados eram marinheiros estrangeiros.



Como disse no início deste post, a tatuagem no Japão ainda é associada à criminalidade, principalmente a Yakuza. Assim como toda boa máfia, os grupos fazem das tatuagens uma prova de lealdade e poder. É quase um clichê em filme quando um homem tatuado entra numa casa de banho e os outros clientes fogem correndo.




Mas claro que pelas bandas de lá, as tatoos também estão na moda. Enquanto por aqui as mais pedidas são ideogramas japoneses, por lá são palavras em sânscrito.

21.3.08

kasatô marú e festa de que não começou

O jornal francês Liberation.fr publicou um artigo sobre as comemorações do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil. Os franceses se surpreenderam com o fato de um país celebrar uma imigração e indagaram por que nunca houve esse tipo de comemoração na França. Quem conta melhor é a Maria Lina, do blog Conexão Paris: “Uns indagam porque na França nunca houve comemorações deste tipo. Outros respondem que isto seria impossível visto a tensão existente entre franceses e imigrantes e entre grupos de imigrantes de origens diferentes. Uma comemoração qualquer poderia levantar uma série de manifestações contrárias à entrada e à presença de imigrantes na França, discussões políticas sem fim do tipo porque comemorar este grupo de imigrantes e não um outro”.

É importante dizer que a imigração japonesa só é celebrada porque foi de grande importância para o Brasil. Assim como os italianos e alemães, os japoneses contribuíram para o rápido desenvolvimento de diversos segmentos no século passado, principalmente no setor agrário. Por aqui, as celebrações têm sido tímidas e isoladas, organizadas apenas por grupos de descendentes. Segundo me contaram, no Japão não há qualquer lembrança sobre o Centenário, apenas uma nota da imperatriz Michiko dizendo que estará refletindo sobre a dura vida que japoneses tiveram no Brasil. That’s all, mas eu acho muito pouco. Nem vou de dizer como o Rio está comemorando, a pobreza é tanta que dá até vergonha.

19.3.08

um dia de cão



Uma máxima do jornalismo diz que para se vender mais jornal basta colocar foto de criança ou bicho na primeira página. Não há nenhum estudo que comprove isso, mas é fato que notícias com animais sempre chamam minha atenção. É fato também que meu coração é frio como a Sibéria (segundo minha irmã), mas derrete-se com qualquer história bonitinha envolvendo bichos. A internacionalmente famosa Hachiko é um exemplo. Hachiko era a cadela akita de um professor universitário que morava no subúrbio de Tóquio. Todas as manhãs, Hachiko acompanhava seu dono até a estação de trem e o buscava no fim da tarde, até o dia em que o professor não voltou. No dia 21 de maio de 1925, Eizaburo Bueno sofreu um derrame e morreu na universidade. Hachiko passou a ser cuidada por parentes e amigos do professor, mas manteve sua rotina de ir à estação e esperar seu dono. Em 1934, aos 11 anos, Hachiko foi encontrada morta em frente à estação. Essa história ficou tão famosa que uma estátua foi construída em sua homenagem. Com a guerra, todas as estátuas foram derretidas, mas uma nova foi logo feita e continua em frente à estação Shibuya, em Tóquio.

Em 1987, Seijiro Koyama dirigiu o lacrimoso Hachiko Monogatari. Para este ano, um outro filme baseado na história deve chegar aos cinemas, dirigido por Lasse Hallström e com Richard Gere no elenco. Leve lencinhos!



1.3.08

meu pé de laranja lima

Amo e odeio o Rio. Ultimamente tenho odiado mais que amado. Olhando de longe, é uma cidade linda, uma maravilha de cenário, mas é só dar uma volta que tudo muda de tom. A desordem urbana é mais que absurda! Camelôs, entregadores de panfletos, moradores de rua, trânsito caótico, falta de fiscalização, ausência de sinalização, má conservação... Enfim, os cariocas acreditam tanto na própria malandragem e na leveza de seu cotidiano, que ficam excessivamente informais. Durante algumas décadas, o Rio acolheu muitos imigrantes, mas muitos deixaram a cidade nas décadas de 80 e 90. A maioria viveu nos bairros do Flamengo e Laranjeiras, e justamente falando de Laranjeiras que “homenageio” o 443° aniversário do Rio.


Parque Guinle

Como diz meu pai, Laranjeiras é uma reta. É praticamente tudo que cerca a Rua das Laranjeiras, do Largo do Machado até o início do Cosme Velho. Logo, se algo acontece na rua, o bairro pára. Faz fronteira com Botafogo, Flamengo, Santa Teresa e Cosme Velho. Praticamente um bairro de passagem, para subir ao Corcovado tem que passar por ali. Sobrevive do pequeno comércio e não há muitas opções de lazer, compras, serviços etc. De alguns anos para cá, como um puxadinho da boemia “descontraída” de Santa Teresa, o bairro tem recebido alguns cafés, bares e ateliês, mas nada que encha os olhos. Infelizmente, sofre com o esquecimento do governo municipal e o aumento no número de roubos. Fora o insuportável trânsito na hora do rush – felizmente o bingo foi fechado, mas tem as escolas e suas filas duplas.


Casas Casadas

Bom, não só de coisas ruins vive Laranjeiras, aposto que quando os turistas passam por lá, acham o bairro simpático. E realmente é, mas sem exageros. Pode não ter a sofisticação de Ipanema e Leblon, mas ainda não é desagradável como Botafogo e Copacabana (desculpe, mas acho Botafogo caótico e cheio de cocôs, Copa é uma triste decadência). Gosto particularmente dos prédios antigos da General Glicério e os que circundam o Parque Guinle, conservam um modernismo limpo dos traços de Lúcio Costa. É em Laranjeiras a sede do governo estadual, a residência do governador e o Fluminense – se um dia estiver perto e na hora do almoço, o restaurante do Fluminense oferece comida honesta, e você ainda encontra a Juliana Veloso e os jogadores (como se eu soubesse quem é quem).


Rua General Glicério
Escola Nacional de Surdos e Mudos

O grande número de japoneses no bairro pedia uma mercearia com produtos orientais. Por alguns anos o Kotobuki era apenas um mercadinho oriental que concorria com o Fuji, há poucos metros no mesmo lado da rua. O Kotobuki cresceu, virou restaurante fenômeno e fechou. Já o Fuji continua fornecendo os shoyus, mirins e ajinomotos. Apesar dos pesares, o bairro é continua sendo queridinho no meu coração. As criticas que faço ainda são muitas, mas elas também se estendem aos outros bairros. Laranjeiras é um dos bairros mais antigos do Rio. Ah, e apesar do nome, não tem um pé de laranjeira. Para saber mais sobre sua história, recomendo as visitas guiadas pela excelente e simpática professora Angélica, é só me mandar um e-mail ou deixar nos comentários.

28.2.08

little boy – a rosa radioativa, estúpida e inválida


“Enquanto eu procurava por minha filha, caminhei sobre uma montanha de corpos. Vi cadáveres de pessoas que, provavelmente, correram para jogar seus rostos na água da cisterna, onde todos morreram com seus braços ao redor dos outros. Como eles devem ter gritado por água! Meu coração doeu por eles. E juntei minhas mãos em oração”.

O desenho e o relato são de Kikue Komatsu, que tinha 37 anos quando a Little Boy caiu em Hiroshima. Em 1974, a NHK pediu para que os sobreviventes enviassem desenhos e relatos sobre esse crime. O resultado foram os resíduos de uma catástrofe hereditária, e passou a fazer parte do acervo do Hiroshima Peace Memorial Museum. Em 2005, 60 anos depois da tragédia, o MAC de São Paulo trouxe 80 desenhos para a exposição Hiroshima – Testemunhas e Diálogos.

Toda guerra é burra e não há mocinhos e vilões. Guerras não são românticas nem heróicas, não há medalha ou homenagem que apague as visões do puro horror. Num momento em que Holocausto está sendo escrito sem o H maiúsculo, temos que tocar constantemente na ferida para que catástrofes como essas não ocorram mais. Apesar de a exposição ter ocorrido há dois anos, é possível ver e lê-la pela página do MAC.


6 de agosto de 1945. Uma mãe, atônita, segura seu filho morto com toda a força.
Fumiko Shibata, 24 anos em 1945.

27.2.08

no norte


Nos tempos em que as especiarias tinham valor de moeda, os portugueses batizaram a pimenta-preta com uma marca própria, pimenta-do-reino. As primeiras mudas vieram do sul da Índia e foram introduzidas na Bahia. Séculos depois, em 1926, cientistas japoneses procuravam áreas para instalar colônias agrícolas no Brasil, a intenção era dinamizar a economia com o desenvolvimento de culturas e novas técnicas de cultivo. No norte do país encontraram os municípios de Manacapuru (AM), Baixo Amazonas, Santarém de Tomé-Açu – PA. Dessas quatro regiões, Tomé-Açu é a mais conhecida, justamente por ter levado o Brasil ao topo no ranking de maiores produtores de pimenta-do-reino do mundo.

Esse título pode parecer sem importância, mas a pimenta tornou-se um dos maiores produtos de exportação do Brasil. Se ela tinha grande valor econômico para um país como todo, regionalmente, ela era ainda mais valorizada. O cultivo da pimenta-preta empregava muitas pessoas e ainda era possível aumentar a renda com o plantio familiar.

Lá nos idos de 1929, a Companhia Nipônica de Plantação no Brasil instalou-se em Tomé-Açu e trouxe os primeiros 189 colonos e, consequentemente, a técnica de plantio intensivo, adotada depois pelos brasileiros.

Com a Segunda Guerra, o governo brasileiro interveio na Companhia e a transformou num campo de concentração. Depois da guerra, os colonos passaram por grandes dificuldades, mas se reergueram com o cultivo da pimenta-do-reino, associando-se a União dos Lavradores (17 membros que continuavam em atividade). Em poucos anos, a cooperativa tornou-se a mais importante do país e referência em sua área.

Tomé-Açu cresceu ao redor da cooperativa, que passou a manter um hospital, postos de saúde e a patrocinar eventos culturais e esportivos, além de oferecer programas educacionais e esportivos. A produção de pimenta-do-reino caiu na década 1980, mas o Brasil continua entre os cinco maiores produtores.

+ Rebraf - outubro/04

+ Abril - 100 anos - agosto/93

+ National Geographic - julho/07

10.1.08

100 anos atrás




Lá no início do século XX, quando o Japão deixou de ser feudal e passou a mecanizar suas lavouras, milhões de trabalhadores perderam seus empregos e a miséria se alastrou pelas cidades. O que fazer com tanta gente? Mandar pra fora, ora. Na mesma época, o governo italiano havia proibido a imigração de seus filhos para o Brasil, logo, a terra prometida estava carente de trabalhadores nas lavouras de café. E foi assim que, em junho de 1908, 165 famílias desembarcaram no Porto de Santos.

Kasato Maru, o navio que trouxe as primeiras 165 famílias / Imigrantes indo para o interior.

Com o fim da Primeira Guerra, o número de imigrantes deu um grande salto. Além de resolver o problema demográfico nas cidades rurais, o governo japonês queria expandir a etnia e a cultura nipônica pelo mundo. A maioria deles permaneceu no campo, desenvolvendo o cultivo de arroz, morango, chá e pimenta-do-reino. Bom, se temos verduras, legumes e frutas de alta qualidade hoje, devemos aos agricultores japoneses que aperfeiçoaram as plantações com irrigações, estufas e enxertos.

Estima-se que há 1,5 milhão de nipo-brasileiros hoje, a maior colônia japonesa fora do Japão. Se lá no início do século passado, o governo japonês queria disseminar a cultura e a etnia de seu país, acho que conseguiu. Ou foi o contrário? Não importa. Em comemoração ao centenário da imigração japonesa, abro este modesto blog para esmiuçar o cotidiano de uma família japonesa há quase 50 anos nesta terra. Não, não, não sabemos sambar, mas adoramos uma moqueca e falamos “paralelepípedo” sem embolar a língua. Falamos e damos aula de japoguês.