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7.12.08

salariman


Dias desses meus pais estavam comparando Shall We Dansu com seu remake hollywoodiano. “Eles fizeram tudo igualzinho, mas Richard Gere não tem cara de sarariman”.

“Salariman”. Há milênios não ouço essa palavra, que vem, japoneticamente falando, do inglês salaryman. São pobres assalariados que realizam trabalhos burocráticos dentro de grandes corporações. A imagem de sujeitos desanimados e pouco originais é sempre usada em filmes e mangas. Fora da ficção, são facilmente identificáveis, pois são tão caricaturais quanto.

Como reconhecer um sarariman:

- É mais que evidente que sua vida gira ao redor do seu cubículo no escritório

- Estão sempre fazendo hora-extra

- São pouco originais – em todos os sentidos

- Pouco competitivos

- Obedientes dentro da empresa

- Adoram um karaokê e fumam loucamente

- Estão sempre de camisa branca, terno e gravata.

Os mais radicais são chamados de kaisha no inu (cachorro da empresa, numa tradução mais livre). Os que se rebelam e querem sair dessa vida, cometem o datsusara, que significa sair do emprego e arranjar outro trabalho. A nova ocupação é ser dono do próprio nariz, ser o próprio patrão. Opção difícil, pois não há garantia de sucesso e é preciso uma boa quantia de dinheiro para poder recomeçar.

Então, caro leitor, quando vir um sujeito parecido com a descrição acima, dê um sorriso e mostre que há vida inteligente fora do escritório!

Salaryman 6. Dir. Jake Knight

10.5.08

ink


Estava numa livraria quando vi um livro-catálogo de tatuagens, olhei para o lado e vi um garoto com seu nome tatuado em japonês, “Buruno”. Acho essas coisas engraçadas, mas para um japonês conservador, é um atestado de burrice. De fato, a tatuagem no Japão ainda é associada à criminalidade. Em muitos lugares, como saunas, piscinas, academias e casas de banho, a entrada de tatuados é proibida.

Durante o período Yayoi (300 AC – 300), a tatuagem tinha conotação espiritual e era símbolo de status. Na era seguinte, a Kofun (300AD – 600), a tatuagem passou a ser sinônimo de punição, assim como nos escravos romanos. Só na era Edo (1600 – 1860) que a tatuagem japonesa passou a se desenvolver como a conhecemos hoje, principalmente pela influência do romance chinês Suikoden – épico de grande sucesso que conta a história de 108 bravos guerreiros a lá Robin Hood que tinham seus corpos tatuados com figuras de dragões, demônios, flores e tigres.



A tatuagem japonesa diferencia-se por não usar agulhas, mas uma talhadeira e, claro, a famosa tinta Nara, que fica numa tonalidade azul-esverdeada sob a pele. Durante a era Meiji, meados do século IXX, a tatuagem foi proibida no Japão, voltando a ser permitida só em 1945. Durante esse período, a conotação underground só fez aumentar a procura por tatuadores clandestinos, muitos dos interessados eram marinheiros estrangeiros.



Como disse no início deste post, a tatuagem no Japão ainda é associada à criminalidade, principalmente a Yakuza. Assim como toda boa máfia, os grupos fazem das tatuagens uma prova de lealdade e poder. É quase um clichê em filme quando um homem tatuado entra numa casa de banho e os outros clientes fogem correndo.




Mas claro que pelas bandas de lá, as tatoos também estão na moda. Enquanto por aqui as mais pedidas são ideogramas japoneses, por lá são palavras em sânscrito.

4.4.08

demência

Ando perplexo com a história da menina que foi jogada do sexto andar em São Paulo. Não consigo entender por que alguém faria isso. Na mesma semana, uma outra notícia também me deixou embasbacado. Nos Estados Unidos, nove crianças entre oito e dez anos se juntaram para matar a professora. O sinistro plano foi minuciosamente arquitetado, cada um tinha seu papel. Um cobriria as janelas, outro atrairia a professora, outro a prenderia com uma algema e limparia a cena do crime. O plano só foi descoberto após uma menina ver uma faca na mochila do colega e relatado à professora.

Minha mãe disse que essas coisas acontecem toda hora no Japão. Não é bem toda hora, mas é cada vez mais freqüente. Lembro do caso de um menino de 12 anos que seqüestrou um de cinco e o esfaqueou simplesmente para ver como uma pessoa morre. Se já não fosse bárbaro demais, ele ainda fincou a cabeça do menino no portão da escola. O caso foi noticiado ininterruptamente nos noticiários de lá e levantou a discussão sobre a influência da mídia sobre as crianças.

Acho que responsabilizar televisão, internet e jogos é apenas uma forma de jogar a batata quente para o colo do outro. A rápida industrialização no fim do século passado no Japão mexeu dramaticamente nas relações familiares. Com oferta de trabalho nas cidades, famílias rurais tentaram a sorte em fábricas e empresas. A rígida rotina de trabalho obrigou pais a delegarem o papel da educação à escola, e a falta de diálogo tornou as famílias meramente pessoas que dividem uma casa.

Uma amiga japonesa que passou quase um ano no Brasil disse que ficou chocada como minha irmã e eu nos damos bem. Segundo ela, é raríssimo encontrar irmãos que se falam no Japão. Ao pesquisar mais sobre o assunto, vi inúmeras notícias de dekaasseguis cometendo crimes, inclusive assassinatos brutais. Poderia me estender mais sobre o assunto, mas prefiro parar por aqui.

21.3.08

kasatô marú e festa de que não começou

O jornal francês Liberation.fr publicou um artigo sobre as comemorações do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil. Os franceses se surpreenderam com o fato de um país celebrar uma imigração e indagaram por que nunca houve esse tipo de comemoração na França. Quem conta melhor é a Maria Lina, do blog Conexão Paris: “Uns indagam porque na França nunca houve comemorações deste tipo. Outros respondem que isto seria impossível visto a tensão existente entre franceses e imigrantes e entre grupos de imigrantes de origens diferentes. Uma comemoração qualquer poderia levantar uma série de manifestações contrárias à entrada e à presença de imigrantes na França, discussões políticas sem fim do tipo porque comemorar este grupo de imigrantes e não um outro”.

É importante dizer que a imigração japonesa só é celebrada porque foi de grande importância para o Brasil. Assim como os italianos e alemães, os japoneses contribuíram para o rápido desenvolvimento de diversos segmentos no século passado, principalmente no setor agrário. Por aqui, as celebrações têm sido tímidas e isoladas, organizadas apenas por grupos de descendentes. Segundo me contaram, no Japão não há qualquer lembrança sobre o Centenário, apenas uma nota da imperatriz Michiko dizendo que estará refletindo sobre a dura vida que japoneses tiveram no Brasil. That’s all, mas eu acho muito pouco. Nem vou de dizer como o Rio está comemorando, a pobreza é tanta que dá até vergonha.

15.3.08

toda mulher é meio leila diniz

Devo e não nego! Prometi um post especial para o Dia Internacional da Mulher, mas devido a outros compromissos, o post vem com uma semana de atraso. Desculpe.

Histórias de princesas ainda encantam meninas de todo mundo. No século passado, uma plebéia inglesa alimentou ainda mais esse reino. Na versão bonitinha, Diana casou-se com o orelhudo Charles, os dois tiveram dois filhos homens, se divorciaram e ela morreu tragicamente num acidente de carro. Já na versão alternativa, Diana roubou Charles de sua irmã e teve diversos casos enquanto ele queria ser o o.b. da amante. A relação ficou insustentável e os dois se divorciaram, para o bem da saúde da rainha. Porém, uma vez princesa, sempre princesa. Grávida, ou não, Diana morreu (ou foi assassinada) num acidente automobilístico ao lado de seu namorado Dodi.

Depois do primeiro parágrafo, você provavelmente deve estar pensando o que os moradores do Palácio de Buckingham tem a ver com este blog. Tudo e nada, eu respondo. Na terra em que calcinhas usadas são vendidas em vending machines, uma outra princesa vive pressões parecidas com as de sua colega. Poliglota, bacharel em artes, formada em economia por Harvard e com pós-graduação, não concluída, em relações internacionais em Oxford, Masako Owada casou-se com o príncipe-herdeiro Naruhito aos 29 anos. Um sonho para qualquer japonesa.

Masako tinha uma carreira promissora no Ministério de Relações Exteriores japonês, mas teve que abandoná-la porque a Constituição Japonesa não permite que membros da família imperial envolvam-se com atividades políticas. Os protocolos e a vida reclusa da realeza nipônica não a agradavam, mas a obrigação de ter um filho homem era a mais cansativa das pressões. Depois de tentativas sem sucesso, Masako teve uma filha, Aiko. Ao mesmo tempo, alívio e decepção. Numa sociedade patriarcal, não é surpreendente que sua Constituição também seja. Uma mulher pode assumir o trono? A maioria dos japoneses diz que sim, mas ainda enfrentam o conservadorismo de alguns políticos.

Masako sempre foi uma Monalisa para mim, por mais ensaiado que seja o comportamento de um membro da realeza, ela sempre me passou a sensação de desconforto. Sua sogra, a imperatriz Michiko foi a primeira plebéia a entrar na realeza japonesa. Quem a vê com seus famosos chapéus e luvas jamais imaginaria que a delicada imperatriz sofreu dura oposição de sua sogra. Mas o que mais me intriga é por que Masako aceitou esta vida?

Cara de apaixonada ela nunca teve. Segundo contam, foi a insistência do príncipe Naruhito que a levou ao altar. Ano passado, um escritor australiano lançou uma biografia da princesa. O livro foi duramente criticado pela Família Imperial e pelo governo japonês por relatar os anos de alto stress e depressão que Masako sofreu até Aiko nascer. Japoneses têm dificuldade em aceitar verdades. Foi só após a morte da sogra da imperatriz que se soube do grande stress que Michiko foi submetida, talvez só daqui a alguns anos a Família Imperial admitirá que os sentimentos de Masako nunca transpareceram nas fotos.

Ainda vê-se mulheres andando um passo atrás dos maridos. Ainda há agressões domésticas silenciadas pela vergonha, ainda há a idéia do dever de submissão feminina. As boas mulheres do Japão ainda cobrem a boca quando riem e acham que a voz infantilizada agrada aos homens. Essa caricatura exótica para inglês ver esconde as verdadeiras boas mulheres do Japão. Estas são modernas desde sempre e sentem o grão de arroz debaixo do colchão.

8.2.08

fugiro entrevista

O Fugiro “rouba” um pouco a idéia do Expatriados e lança uma nova sessão, O Fugiro Entrevista. Nessa primeira edição, eu entrevisto Mari Ueoka, que vive há quase 11 anos no Japão. Filha de japoneses, nasceu e cresceu no Brasil. Casada e com três filhos – Yúmin, Lukas e Leonardo – ela divide-se entre o trabalho e os cuidados com a família. Senhoras e senhores, eu apresento Mari.




Há quanto tempo está no Japão?

Já se passaram 10 anos e 6 meses. Cheguei em Hiroshima em agosto de 1997.

Mari, você fez o caminho inverso e foi para o Japão com sua família. Como foram os primeiros meses? Pior ou melhor que você esperava? E a adaptação?

Como meus pais já moravam aqui, viemos mais seguros, pois se houvesse alguma dificuldade, os meus pais nos ajudariam. E a adaptação foi tranqüila, mesmo no primeiro inverno, que é muito frio, adorei!!Pois eu vim grávida e no início de dezembro, no dia que o Leo nasceu, nevou! Foi a primeira vez que vi e senti a neve!!!

Muitos filhos de dekasseguis saem da escola. Seja por não conseguirem acompanhar o ritmo, as diferenças dos idiomas ou por bullying (implicância) que sofrem de colegas de classe. A Yúmin teve problemas em se adaptar?

Ela não teve nenhum problema tanto na creche e na escola primária. Acho que por morarmos numa cidade pequena os estrangeiros são ainda novidades para os pequenos japoneses até mesmo para alguns pais.A Yúmin agora está se formando no curso ginasial. Nesse período de adolescência é um pouco delicado. Mas problema por bullying por ser estrangeira, não teve.

Falando em bullying, você sente preconceito com os dekasseguis?

Como aqui na minha cidade não tem muitos dekasseguis, não vejo preconceito. Os estrangeiros são tratados como cidadãos igual aos japonêses. Pagamos impostos, procuramos seguir as normas da cidade, participamos dos eventos e festivais.

Como é seu dia-a-dia?

Acho que agora vai ficar mais agitada, pois o Leo ainda estará na escola primária, o Lukas irá para o ginásio que a escola fica numa outra cidade e a Yúmin começará o colegial, que é na capital de Hiroshima. E como preocupo com as crianças em relação à escola, procuro participar nas reuniões, atividades, eventos, apresentações deles nas escolas. Pensando em família, nos fins de semana, procuramos passear. Agora no inverno, não temos muitas opções, por causa do frio e da neve. Nós vamos nos shoppings, pois tem tudo em um lugar. Passeio extra é ir na pista de esqui, pois só tem no inverno.

Quando esquenta passeamos para lugares abertos, até um churrasquinho com os amigos no parque fazemos.

Depois de tantos anos, seu olhar sobre o Brasil mudou?

Tive no Brasil há 4 anos. O Brasil mudou externamente, mas internamente, eu não posso te dizer, pois não moro aí. Assistindo notícias pela tv, ou lendo artigos pela internet, não é suficiente para saber.

Tem planos de voltar?

Para falar a verdade, no momento não planejamos. Pensando no bem estar das crianças (que são mais japonesas que brasileiras), na educação, que para o Leo ainda faltam 10 anos (se ele fizer uma faculdade), nós vamos ficando por aqui. Quando eles já estiverem independentes, quem sabe eu e o Mauro pensaremos em voltar.

23.1.08

to-bo and the real girl



Recorro ao imbecil discurso do senador Gilvam Borges (PMDB – AP) em defesa de seu amigo Renan Calheiros para abrir este post: “Nós, homens, desde Adão e Eva estamos sujeitos à sedução das mulheres”. Coitados dos pobres homens, vítimas do pecado chamado mulher! Escolhi as aspas acima porque, embora a considere ridícula, sintetiza a linha de pensamento de alguns homens japoneses. O fato é que eles estão demorando a entender a emancipação feminina e passaram a vê-las como um mal. Sabendo disso, empresas de entretenimento adulto encontraram nessa gente seu público alvo. A Orient Doll fabrica bonecas de silicone para fins sexuais ou simplesmente afetivos. No vídeo, o engenheiro identificado como Ta-Bo diz que mulheres enganam e traem, mas as bonecas não fazem isso (ainda bem, só se for o Chuck). Ele já gastou uma fortuna com elas e TEM (atenção para o sentido possessivo) 100 sex dolls. Medo, muito medo!

O preço das bonecas varia entre mil e 6 mil dólares, fora os apetrechos como acessórios, guarda-roupa e maquiagem. Todas têm feições infantis, já que a sociedade japonesa incentiva o comportamento infantilizado e submisso da mulher. Nada mais irritante que aquelas mulheres com voz e trejeitos de uma criança de cinco anos. Como diz minha irmã, dá vontade de dar um soco. Estranho, muito estranho!




Os idosos também são público-alvo dos fabricantes de bonecos. Os velhinhos japoneses buscam companhia nos interativos bonequinhos Yumel, equipados com sensores e com mais de 1000 frases na memória, eles conseguem fazer combinações e conversar. Os Yumels podem ser programados de acordo com a rotina de seu dono, como lembrar a hora do remédio etc. A Grow lançou esses bonecos no Brasil com o preço médio de 170 reais.




O relacionamento afetivo com bonecos é só uma conseqüência da estranha e silenciosa sociedade japonesa, que como um adolescente rebelde, entra em casa e se tranca no quarto para evitar o contato com os outros. Nessa história toda de dolls, eu prefiro a Bianca do Lars, pelo menos a história é bonitinha. Kkkkkkkk!