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26.1.08

ana maria braga



Quando se diz que os japoneses comem curry, isso quer dizer que eles comem à moda deles, um curry bem menos forte e apimentado que o tradicional indiano. Tudo começou na Segunda Guerra, quando no navio só tinha arroz, alguns legumes, um pouco de carne e um condimento diferente que ninguém dava muita bola. Sem saber o que fazer, o cozinheiro misturou tudo e inventou o famoso karê-rice (curry rice) que caiu literalmente na boca do povo. Eles adoram! Sobretudo, porque é simples de fazer, encontrado em qualquer mercado e rende bastante. Ele é vendido em tabletes, chukara – menos ardido / karakuchi – pra quem tem mais coragem; e, dentro destes dois tipos, em diferentes níveis de ardência. O modo de preparo é fácil, escrito no verso da caixa. Basicamente: refogar a cebola, a carne picada, e adicionar batata e cenoura. Acrescentar água fervente e esperar os legumes cozinharem. Desligar o fogo e dissolver o curry. Pode-se acrescentar pedaços de maçã se preferir. Servir com arroz branco.

No vídeo, a simpática Vivian Wei quase perde os dedos cortando legumes, faz cara de confusa, lê o texto, mas consegue mostrar o passo a passo. Parabéns, Vivian, o curry ficou bonito!



Esse “picadinho” indiano pra japa ver também vai bem com pão, o karê-pan. Se tiver curiosidade de experimentar e sem vontade de fazer, passe na Itiriki em São Paulo. Como curry conversa comigo depois de já tê-lo ingerido, prefiro seu primo shityu (stew), um confort food melhor que carne moída com purê de batata. E ótimo revigorante!





Stew é difícil de ser traduzido para o português, talvez a palavra mais correta seria cozido (como li num livro). O wikipedia-pai-de-todos define como diferentes legumes e carnes cozidos juntos. Bom, de qualquer modo, o shichu é diferente do considerado stew original, o irlandês. Não é uma sopa, mas também não é um creme. Ou melhor, é um creme com legumes e carne (ou frango, ou o que quiser) cozidos. Os ingredientes e o modo de preparo são idênticos ao do curry rice, só trocando o tablete por de shichu e acrescentando outros legumes como brócolis e ervilhas. Depois disso, é acrescentado leite e um pouco de manteiga (opcional).

Todo este post serviu apenas para dizer que comi shichu anteontem e estava muito bom! Às vezes os tabletes de stew fazem greve nas prateleiras das lojas especializadas, então, se encontrar, compre mais de um e deixe guardado. Ótimo para dias mais frios!

10.1.08

ainda sobre comida - conservas e doces

Os japoneses não sabem viver sem as conservas, tantos os mais velhos quanto os modernosos de Harajuku, não é de se espantar que eles tenham um dos maiores índices de câncer intestinal. Os tsukemonos são variados, os mais caros e famosos são os produzidos em Kyoto. Pepino, berinjela, nabo, rabanete, acelga, repolho... Tudo salgado e colocado sob peso para extrair toda a água, ou em vinagre. Há também os apimentados, bem estilo coreano. Muitos são bem fedidinhos. Particularmente, não sou muito fã, prefiro os feitos no mesmo dia, levemente salgados e prensados. O meu tsukemono favorito ever é o umeboshi – a ameixa japonesa em conserva. Vai bem com tudo.




Tsukemonos variados de nabo e pepino / tsukemonos industrializados / os azedos umeboshis .

Os doces são feitos de feijão (azuki) e casam muito bem com chá verde: Mandjus, yokan, oshiruko etc. Não me dou bem com anko (a massa do azuki), o único ser da família e adjacências que não come nada feito de azuki. Uma pena, porque eu acho tudo muito bonito e delicado. Para minha sorte, há os shu-creams, uma espécie de bomba com recheio de chocolate ou creme, mas já pelo nome dá pra ver que não é tão nipônico assim. As confeitarias de lá são lindas, tudo feito numa delicadeza ímpar. Aqui no Brasil há a confeitaria Itiriki, com seus pães e doces à moda japonesa.





Diferentes manjus / yokans / oshiruko / shu-cream




Obentos variados

Onde encontrar produtos japoneses, conservas prontas e obentos (marmitas).

São Paulo

Itiriki – Rua dos Estudantes, 24 Liberdade.

Marukai – Rua Galvão Bueno, 34 Liberdade.

Mercados na Liberdade.

Rio de Janeiro

Fuji – Rua das Laranjeiras, 280 loja D Laranjeiras.

Meijo – Rua Marquês de Abrantes, quase esquina com a Praia de Botafogo.

dieta fusion

Com ou sem intimidade, as pessoas adoram me perguntar sobre tudo. Quando eu era criança, as perguntas vinham em velocidade de metralhadora: “Você mora aqui ou lá?”, “na sua casa você fala português ou japonês?”, “você vai casar com uma brasileira ou com uma japonesa?”, “você anda de quimono?”, “você tem garfo em casa?” etc. Mas a campeã é “você come sushi todo dia?”. Não, pequenos gafanhotos, eu não como sushi todo dia e nem conheço ninguém que coma. Contudo, acho que o cardápio de casa seja diferente da maioria dos lares brasileiros. A começar pelo arroz nosso de cada dia, que é diferente do Tio João do supermercado. Cozido sem nenhum tempero, apenas água.



Uma ultra moderna panela de arroz da Tiger. Conhecidas vulgarmente como "okamas", porém o termo é politicamente incorreto. "Okama" é o mesmo que bicha, viado, salta-pocinha...

Quando estamos fartos de carnes, peixe e coisas cotidianas, apelamos para ochazuke (que é cotidiano, mas não aqui em casa), que nada mais é que uma porção de arroz com chá (ocha), a conserva que tem em casa ou feita na hora, uma omelete; ou simplesmente as sobras na geladeira. Tá certo que é uma refeição light e duas horas depois dá fome, mas dá uma variada no cardápio que é uma beleza. No dia seguinte voltam os bifes, refogados, massas...


Tigelas com arroz, chá e uma mistura para ochazukes (algas secas, biscoito de arroz).


Mas por que fusion? Porque não importa a origem da receita, sempre se incorpora um ingrediente típico japonês (shoyu? Quase sempre aparece) ou um japanese style na hora do preparo. Se não tem funghi ou portobello para fazer o molho que acompanhará a carne, vai shitake mesmo. Pegadores não funcionam, o negócio é usar hashi. Na falta de vinho, o mirin (saquê culinário) equilibra a acidez e dá o aroma alcoólico. Tempurás de legumes e camarão fazem sucesso, assim como o de jiló, coisa nunca vista nas terras de lá. Só meu pai, que uma vez levou escondido algumas sementes e deu para minha tia plantar. Nasceram os jilós mais amargos da galáxia, mas viraram hit.


Arroz, salada verde, carne, conserva de nabo e misoshiro / arroz, misoshiro, peixe grelhado com nabo ralado / arroz, conserva de pepino, misoshiro, mabu dofu (tofu picante), refogado de frando e salada verde.


Os sushis servidos por aqui também precisaram se adaptar. Já que os peixes que lá nadam, não nadam como cá, o jeito foi ver o que o mercado oferece, como o namorado, muito usado em todos os restaurantes (dos desconhecidos aos badalados). Fora as combinações que os mais puristas torcem o nariz, acho que experimentações são sempre bem-vindas, mas não me venha com sushi de morango e abacaxi!

A culinária japonesa é bem definida, mesmo utilizando os mesmos produtos que os outros países asiáticos usam. Já a brasileira é uma coisa, incorporou as influências de todos os imigrantes que aqui permaneceram. Naturalmente, a gente também. De estrogonofe a charuto, passando por risoto e lasanha, com direito a apple crumble e sachertorte de sobremesa. Ah, no feijão a gente não mexe, mas come com arroz japonês. E eu adoro um queijo ralado por cima.